Os Barões da Psicanálise (Parte I)

por Roberto dos Santos Mello

Publicação Original: , em 2011-12-15

OS BARÕES DA PSICANÁLISE E A PSICANÁLISE DOS BARÕES


Roberto Mello

 

Apresentação

 

O poder da palavra, os efeitos de um texto

 

"A verdade tem uma estrutura de ficção porque ela passa pela

linguagem e a linguagem tem uma estrutura de ficção."

Jacques Lacan

(Conférences et entretiens dans des universités nord-americaines.

Scilicet 6/7. Paris, Seuil,1976,p.6-63)

 

     Este trabalho tem duas partes. A primeira, com o título de "Os barões da psicanálise", artigo-reportagem publicado pelo Jornal do Brasil de 23-9-1980, cobre o período que vai de 1980 a 1986. Descreve a denúncia do elitismo da psicanálise, agravado pelo apoliticismo dos psicanalistas fora dos seus consultórios. O apoliticismo foi traduzido como um artefato ideológico da cumplicidade com a ditadura militar. Esta denúncia - pública e a mais radical já feita no Brasil - partiu de três psicanalistas: Helio Pellegrino, Eduardo Mascarenhas e Wilson  Chebabi.

     Por um gesto arbitrário, e com base nas denúncias publicadas, a direção da SPRJ (Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro) expulsou Pellegrino e Mascarenhas da instituição, sem direito de defesa, embora o nome da sociedade não tivesse sido mencionado uma única vez.

     Segue-se a descrição de uma luta travada pela imprensa, até a vitória dos dois psicanalistas, integrados à sua instituição por decisão judicial. O tom e as reviravoltas dessa luta assumem, às vezes, o caráter de peripécias de um drama folhetinesco, antes que se desvelasse a tragédia.

     A segunda parte, intitulada "A psicanálise da tortura", começa em 1986 e seus efeitos se estendem até a convocação dos Estados Gerais da Psicanálise pelo filósofo Jacques Derrida e pelo psicanalista René Major, entre outros, no ano 2000 para discutir as relações da psicanálise com a política e a crueldade. Esta segunda parte mostra a cumplicidade da direção da SPRJ(Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro) e da SBPRJ (Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro) , ambas filiadas à IPA (International Psychoanalytical Association, fundada por Freud em 1907?), com a tortura praticada nos quartéis. A ligação entre as duas partes é Amílcar Lobo, tenente-médico que fazia formação analítica na SPRJ ao mesmo tempo em que participava da equipe de tortura.

     Em 1986, o ministro da Justiça Paulo Brossard manda apurar as denúncias de Amílcar Lobo, que teria visto o corpo do ex-deputado Rubens Paiva, torturado até a morte. Esclarecia-se um mistério. Rubens Paiva fora torturado e não apenas estava desaparecido, como queria a ditadura.

     O artigo de Pellegrino intitulado "A hora do lobo", publicado pelo Jornal do Brasil de 12-9-1986, descreve os dois momentos da crise deflagrada com "Os barões da psicanálise" e desdobrada em "A psicanálise da tortura".

     Este trabalho registra ainda a ocorrência de quatro mortes: em 1988, a de Helio Pellegrino e a da Clínica Social de Psicanálise, sua mais querida utopia; e em 1997, as mortes de Eduardo Mascarenhas e Amilcar Lobo, o sinistro "Dr Carneiro", cuja confissão ajudou a estabelecer a verdade de um dos mais terríveis capítulos da história política brasileira.

     "Utopia" foi o termo empregado pelo filósofo Michel Foucault, ao visitar a Clínica Social, no Rio de Janeiro, nos anos 70. Foucault se declarou comovido com a experiência e incentivou os analistas a saírem da utopia para mexer na realidade.

     Pioneira no Brasil, a Clínica Social de Psicanálise foi fundada em 1973 por Helio Pellegrino e Kattrin Kemper para atender gente pobre. Era uma forma de deselitizar a psicanálise. Era também uma oportunidade para que os analistas elaborassem seus sentimentos de culpa - francamente admitidos - por sua condição social privilegiada. Era ainda um retorno a um velho sonho de Freud que, em 1908, considerava o tratamento da neurose uma urgente matéria de saúde pública. O sonho retorna com Lacan, que pretendeu levar a cura não apenas ao indivíduo, mas também à civilização, muito além dos consultórios, numa atividade por ele denominada de "psicanálise em extensão".

     É na dimensão de uma clínica extensiva que se inscreve o trabalho iniciado com "Os barões da psicanálise". Os efeitos inesperados que daí advieram lembram o horror do analista ante o seu ato. Olhando retrospectivamente, num tempo só-depois, constato que "Os barões da psicanálise" teve o efeito de uma interpretação mutativa.

     O trabalho termina com o texto "A psicanálise na favela", de 1979, como um retorno ao ponto de partida: a questão social brasileira.

      No dizer do psicanalista Horus Vital Brazil, a psicanálise correu um sério risco de ser anulada em nosso país, entregue a conservadores e torturadores. Só não o foi graças ao esforço de muita gente que lutou contra a ditadura. Por isso, a palavra de Helio Pellegrino não será silenciada. Ao ler os originais, meu filho, Pablo, disse: "Pai, isso parece um filme, uma novela, a gente fica torcendo pra saber o que vai acontecer." Preciso dizer que isso me animou a retomar a narrativa. (R.M.)

                                                                

Hora do lobo, resumo da ópera

 

     Seis anos depois de publicado o texto "Os barões da psicanálise" no Jornal do Brasil de 23-9-1980, que serviu de pretexto para que a direção da SPRJ (Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro) expulsasse os psicanalistas Helio Pelegrino e Eduardo Mascarenhas, sentindo-se atacada pelas críticas ao establishment psicanalítico, a crise ganha um novo desdobramento: passa do âmbito da instituição psicanalítica para o da situação política mais ampla. Os militares já não podiam negar a existência da tortura nos quartéis. O tenente-médico Amilcar Lobo confessa publicamente que viu o corpo torturado do ex-deputado Rubens Paiva. Admite que participou da tortura. E fazia formação analítica na SPRJ. O resumo da crise está num artigo de Helio Pellegrino, intitulado "A hora do lobo", publicado no JB em 12-9-86. Suas palavras:

 

- Em 1980, na vigência do governo Figueiredo, começou a ampliar-se, com ofegante esforço, a abertura democrática, seja pela pressão das bases populares - grandes movimentos grevistas do proletariado metalúrgico, no ABC paulista -, seja por cálculo das elites empresariais e políticas, alarmadas com o esgotamento e a desmoralização do ciclo de ditadura militar, imposto ao país pelo golpe de 64. A abertura se afirmava, principalmente, através da liberdade de imprensa, cuja autonomia crescente aluía - e corroía - os fundamentos autoritários do regime castrense. Além do mais, por toda parte, colhiam-se os frutos da despoluição cívica que desafogava a nação e estimulava o exercício da cidadania.

Instituição desvinculada das sociedades psicanalíticas tradicionais, a Clínica Social de Psicanálise, cujo objetivo é o atendimento psicoterápico de pessoas de baixa renda, resolveu programar para outubro de 1980 uma série de debates sob o título geral de Psicanálise e Política. O primeiro deles, realizado no auditório B2 da PUC, versava sobre o seguinte tema: A Psicanálise e sua inserção no Modelo Capitalista. Da mesa-redonda participaram os psicanalistas Eduardo Mascarenhas, Wilson Chebabi e o autor destas linhas. Pela primeira vez, na história da psicanálise brasileira, os temas institucionais das sociedades psicanalíticas foram tratados, de público, com transparência, lealdade - e franqueza. Não se fez alusão a nenhuma instituição psicanalítica em particular. Falou-se, não do varejo, mas do atacado, criticou-se o apoliticismo ideológico do movimento psicanalítico, a serviço do statu quo político e social e, ao mesmo tempo, fez-se a denúncia dos barões da psicanálise, reduzido grupo de analistas aos quais ficava afeta a análise dos candidatos ao diploma de psicanalista. Os barões haviam construído para si uma condição cartorária: tinham clientela cativa e, através de manipulações hierárquico-burocráticas, detinham ciosamente o poder de formar psicanalistas, com as vantagens pecuniárias correspondentes.

O jornalista Roberto Mello, hoje também psicanalista, publicou por sua iniciativa, e sem qualquer consulta aos participantes do debate, uma longa reportagem sobre a mesa-redonda, no Caderno B do JORNAL DO BRASIL, edição de 23 de setembro de 1980. O texto, antológico do ponto de vista da competência jornalística, teve grande sucesso e, por sua vez, desencadeou importantes sucessos. A Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, embora não tivesse sido citada nenhuma vez, vestiu a carapuça e, exclusivamente fundamentada no texto de Roberto Mello, expulsou de seus quadros dois dos participantes da mesa-redonda - o psicanalista Eduardo Mascarenhas e eu próprio -, sem sequer dar-nos o direito de defesa.

O fato causou assombro e escândalo, além de desatar a curiosidade - e a solidariedade - da imprensa, com respeito à nossa causa. Recorremos à Justiça e, conduzidos pelo extraordinário talento de Sérgio Bermudes, depois de longas e já conhecidas peripécias, fomos reintegrados aos quadros da SPRJ por mandado judicial. Encerrava-se aí longo período de arbítrio, através de um modelo de luta que, em escala liliputiana, reproduzia o grande conflito em que se empenhava a sociedade brasileira. De uma banda, acuados, oblíquos, desleais, os representantes do autoritarismo institucional, dispostos a qualquer manobra para salvar a própria pele. De outra, a vasta maioria de membros associados da SPRJ, aos quais não se reconhecia nem ao menos o direito de voto, limitado ao feudo dos barões. As vicissitudes e os documentos desse embate, decisivo para o progresso institucional da ciência psicanalítica entre nós, estão inscritos no livro Crise na Psicanálise, publicado em agosto de 1982 pela editora Graal.

Entre as questões levantadas pela crise da SPRJ, uma há que, no momento, ganha contornos atualíssimos. Trata-se das relações entre a instituição e o candidato Amílcar Lobo Moreira da Silva, jamais explicadas de maneira satisfatória. O ex-tenente médico, tentando construir agora sua reabilitação moral, pela coragem com que depôs sobre o tenebroso affaire Rubens Paiva, entrou para membro candidato da SPRJ em 1969. Lembro-me que, nesse ano, tive minha prisão preventiva decretada pelo Poder Militar, incurso na Lei de Segurança por delito de opinião. Pedi à Sociedade Psicanalítica que me desse um documento no qual ficasse dito que a detenção poderia causar ansiedade nos pacientes sob meus cuidados. O papel me foi negado, a pretexto de que a SPRJ era apolítica. Ao mesmo tempo, entretanto, acolhia ela - e por longo prazo - um candidato que participava da equipe de tortura do DOI-CODI da PE do Exército, na rua Barão de Mesquita.

O então tenente médico iniciou em 1969 sua análise didática com o doutor Antônio Dutra Jr, tornando-se, em 1970, paciente do doutor Leão Cabernite, por ter o seu primeiro analista viajado para Londres. Na condição de candidato, fez análise com o doutor Cabernite até 1973, quando foi denunciado, como participante da tortura política do país, pela revista Argentina Questionamos. A denúncia vinha assinada por Marie Langer e Armando Bauleo, dois grandes nomes da psicanálise latino-americana, e havia chegado até eles através do jornal clandestino Voz Operária, editado no Brasil. Após a transcrição fac-similada da acusação, a revista informava: "Uma nota al pie, escrita a mano, dice lo seguiente: "Amílcar Lobo es candidato de la Sociedad Psicanalítica de Rio de Janeiro."

 E aqui surge um elenco de fatos graves, fragmentariamente desencavados a fórceps pela energia maiêutica da crise institucional de 1980, depois de sete anos de sepultado segredo. O doutor Leão Cabernite, analista didata do candidato Amílcar Lobo, interpelado pela Comissão de Ensino do IEP e pela direção da SPRJ, da qual fazia parte, na qualidade de seu presidente, negou de pés juntos qualquer participação de seu analisando numa equipe de tortura. Há que assinalar que o candidato Amílcar Lobo, há poucos dias, afirmou em entrevista ao JB que seu confidente único era o doutor Leão Cabernite. Há que assinalar ainda que, por exigência estatutária, os analistas didatas eram obrigados a comunicar à Comissão de Ensino qualquer fato grave que comprometesse a formação dos candidatos em análise.

  O doutor Leão Cabernite, por motivos que só ele pode explicar, cometeu duplo perjúrio. Em primeiro lugar, fingindo abrir mão do sigilo profissional, em nome dos superiores interesses da SPRJ, mentiu ao afirmar que o seu candidato nada tinha a ver com a tortura. Em segundo lugar, induziu a erro grave os colegas que nele acreditaram: vide, a respeito, a declaração do psicanalista Ernesto Meirelles La Porta, feita à revista Veja, no. 649, na qual confirma a garantia dada pelo doutor Leão de que a acusação a Amílcar Lobo era infundada e caluniosa. Nesse mesmo sentido, a doutora Galina Schneider, por ocasião da crise da SPRJ, me fez declaração em caráter pessoal, sem pedido de sigilo.

 O mais espantoso, entretanto, veio depois. O doutor Leão Cabernite, não sei por que via, conseguiu o original - ou cópia fac-similada - do número da Voz Operária, com a nota escrita a mão, em sua margem. Por iniciativa própria, ou acumpliciado com dirigentes da SPRJ e da SBPRJ (Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro), providenciou laudo grafológico de um técnico da polícia e, com ele, acusou a psicanalista Helena Besserman Viana de haver feito a acusação. Adotava-se, sem reserva, a filosofia da ditadura: o crime não era torturar, era denunciar a tortura.

 Digo o que digo porque sei o que digo. Com grave tristeza - mas sem remorso. O médico Amílcar Lobo ficou irregularmente como candidato da SPRJ até 10 de outubro de 1980, quando foi desligado em virtude de carta por mim escrita à instituição, a 2 de outubro do mesmo ano. Agora, num ato de coragem que o dignifica, escolheu dizer a verdade. Que outros o imitem. (JB, 12-9-86).

                                         

O começo

 

     Para se medir o efeito inesperado de um texto, voltemos a ele. "Os barões da psicanálise" foi publicado pelo JB no dia 23-9-80. Sua chamada: "Três psicanalistas - Eduardo Mascarenhas, Wilson Chebabi e Helio Pellegrino - acabam de denunciar o "baronato" da psicanálise: os altos custos do tratamento, a gerontocracia nas instituições psicanalíticas, as discriminações ideológicas contra os candidatos à formação, o falso "apoliticismo", e até mesmo a ignorância das obras de Freud.

     Críticas à psicanálise como atividade que abriga profissionais ávidos de lucros, ou como projeto elitista não chegam a ser novidade. O dado novo é que os três analistas se incluíram entre os beneficiários do "capitalismo selvagem brasileiro", numa severa autocrítica. Tentando aplacar seu "sentimento de culpa" admitiram a validade de trabalhar de graça em sociedades alternativas ao establishment analítico, como a Clínica Social de Psicanálise, embora sem abandonar seus altos lucros nos consultórios privados.

     Pioneira  no atendimento a favelados e pessoas de baixa renda, a Clínica promove um simpósio sobre Psicanálise e Política, no auditório B-2 da PUC, onde essas questões são discutidas todas as quartas-feiras, às 21h. Os participantes acreditam que só pelo debate aberto se pode dar uma resposta à crise da Psicanálise do Brasil.

     Acreditam ainda, como Pellegrino, que "é assim que se combate as bombas terroristas, com o diálogo, a conversa fraterna", como afirmou quarta-feira passada, ao falar sobre o tema Psicanálise e sua inserção no capitalismo. "Não são muitos os analistas que dizem o que foi dito aqui", reconheceu.

 

Mascarenhas denuncia baronato

 

     "A psicanálise está dominada por um baronato. Suas instituições são marcadas por cargos vitalícios, nelas o clima é feudal. O poder é a gerontocracia, prevalecem os padrões do mandarinato. Noventa por cento dos psicanalistas não leram a obra de Freud, contentam-se com uma Introdução à Obra de Melanie Klein, de Hanna Segal. Não sabem distinguir uma epistemologia idealista de uma materialista, nem sabem o que é epistemologia. Não conhecem Kant, Hegel, mal ouviram falar de Marx. Mas neles predomina a pretensão de tudo dominar monopolisticamente. A psicanálise está na fase pré-capitalista, inserida num sistema concorrencial não capitalista, ainda."

     A constatação é do psicanalista Eduardo Mascarenhas, para quem existe um mal estar teórico na psicanálise, uma tensão, um incesto epistemológico que gera abusos como o psicanalismo, já denunciado pelo sociólogo francês Robert Castel. Nessa mistura de teorias, acrescenta, vale tudo e o complexo de Édipo se reduz a um alcance meramente doméstico, de circuito restrito. O tratamento tende para a eternidade, seus custos são altos. A instituição transpira religiosidade e se baseia em premissas feudais.

     Mascarenhas se apóia no materialismo histórico para entender essa crise. O capitalismo foi visto por Marx como uma formação social não necessariamente má nos seus primórdios, diz ele. Não tinha sentido pejorativo, era progressista, resolvia os problemas da época. Só mais tarde é que adquiriu a feição reacionária. Como um sistema social, acrescenta Mascarenhas, ele não é homogêneo. Nele coexistem feudos e escravagismos. A psicanálise é um desses feudos, em que várias ideologias se encastelam.

     O recente Congresso Brasileiro de Psicanálise, na opinião de Mascarenhas, espelhou a crise, sobretudo das instituições ligadas à IPA (International Psychoanalytical Association). Neste Congresso, foram xingados de "charlatães e psicopatas" todos os analistas que não pertencessem à IPA. Considerado um êxito, o Congresso reuniu apenas 700 psicanalistas. Lembra Mascarenhas que 10% da população brasileira padecem de graves transtornos mentais, de acordo com estatísticas oficiais e conservadoras. "Além da fome física, a fome psíquica, o estado de subnutrição psíquica." Formam-se no Rio 800 psicólogos por ano. "No ano 2000, teremos 20 mil psicólogos, só no Rio. Uma autêntica cidade psicológica dentro de nossa cidade. Talvez até com prefeitura e capaz de eleger deputados, quem sabe."

     Mas, hoje, assiste-se a um rigoroso estreitamento do poder aquisitivo da classe média, a clientela potencial dos analistas. Inflação, recessão ameaçam a instituição psicanalítica monopolista. "Os velhos analistas", diz Mascarenhas, "já se sentem tão seguros da reeleição indireta, tão automaticamente como antes. Não é mais fácil ser biônico." Nesse ínterim, "surge o pitoresco Projeto Julianelli, que quer militar a prática psicoterápica aos médicos. Está claro que o projeto, retirado, está marcado por inconstitucionalidade. Mas não se trata de uma lei leonina (sem alusão ao analista Leão Cabernite, considerado um dos seus inspiradores). A lei não teria efeitos retroativos. Quem sabe possa haver um acerto com os psicólogos, fechando o  exercício da psicoterapia a psicólogos e médicos? Tudo isso são fatores de tensão e concorrência que abalam o feudo da psicanálise."

     "Tomemos, por exemplo, a experiência da psicanálise de grupo, com alcance social mais amplo", sugere Mascarenhas, especulando com números. "Nove pessoas, numa sala vazia, sem instrumentos, apenas com a presença do terapeuta, por duas horas semanais, onde se espera que ocorra o acontecimento analítico. Se cada terapeuta atender durante seis horas por dia, 30 horas por semana, a um mínimo de 15 grupos, teremos 135 atendimentos, durante quatro anos, em média. Se ele trabalhar de 30 a 60 anos, terá atendido 4 mil pessoas. Se cobrar, no barato, Cr$ 500 por mês de cada paciente, ganhará Cr$ 60 mil mensais, um salário razoável nas condições brasileiras. O Brasil, então, teria descoberto a solução para a fome psíquica?", ironiza o analista. "E qual seria o impacto político na sociedade brasileira? A psicanálise, assim, teria ingressado no nível concorrencial capitalista, saindo do baronato dominante. É a isso a que estamos assistindo  com o surgimento de instituições , como o Ibrapsi (Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupo e Instituições), que vem provocando tensões no meio psicanalítico."

     Para Mascarenhas, a liderança intelectual e o ativismo político do psicanalista argentino Gregório Barenblit, um dos responsáveis pelo Ibrapsi, muito contribuíram para sacudir o marasmo da instituição psicanalítica tradicional. Desde a época de Perón, e logo no período da abertura argentina, a participação de Barenblitt, segundo Eduardo Mascarenhas, inseriu-se no movimento de vanguarda cultural do país. "A psicoterapia na Argentina era algo assim como o cinema novo no Brasil." Com base nessa experiência, Barenblitt chegou à conclusão de que a psicanálise com alcance social deveria apoiar-se menos "em palavras bonitas e mais em conseqüências práticas" . Em suma, falar menos e fazer mais, se possível discretamente.

     Acontece, lembra Mascarenhas, que se não há "mobilização do narcisismo das pessoas, de sua necessidade de gratificação, a realização desse projeto é difícil". Por isso, na opinião de Mascarenhas, apelou-se para a gratificação do lucro. "O Ibrapsi é uma instituição em moldes capitalistas, com o espírito de iniciativa do capitalismo. Em dois anos, já formou 300 alunos. E eles passam de sete a oito horas por semana trabalhando na instituição, em seminários, supervisões, etc. Isso é mais do que todas as outras instituições ligadas à IPA podem oferecer. Que efeitos isso terá no establishment psicanalítico? Por isso, o Ibrapsi é visto como ameaça, e uma pro-vocação, isto é, um convite a outras instituições falarem, um convocação à fala". Não é à toa, conclui Mascarenhas, "que Barenblitt é um dos alvos da Lei dos Estrangeiros."

 

Chebabi lembra herança de Freud

 

     "Mas o que é que o Mascarenhas está dizendo?", rebate o psicanalista Wilson Chebabi, aceitando a provocação. "Isso é psicanálise, ou o produto de um pensamento embalado, rotulado, etiquetado e distribuído pelas sucursais? Sim, porque o modelo capitalista não se refere apenas às trocas econômicas, é também uma maneira de pensar e entender as coisas."

     Para Chebabi, tudo se passa como se a sociedade (a platéia) esperasse dos conferencistas um pensamento acabado, porque tudo é investimento - de tempo, de energia, de afeto - e tudo espera recompensa, dividendos. "Vale o preço do sacrifício da platéia? Estamos num sistema bancário em que depositamos o capital pensamento: pinça-se um pouco de Freud, de preferência o da Standard Edition, a edição padrão, bem a gosto da linha de montagem que embala para homogeneizar e evita o questionamento. Acontece, porém, que a herança de Freud é crítica e autocrítica, é justamente libertar-se da Standard Edition, é buscar o que está nas entrelinhas. Ler Freud é reescrevê-lo, é como ler o discurso do paciente, em contínua transformação."

     O coquetel Freud-Melanie Klein-Lacan-crítica epistemológica francesa é feito, segundo Chebabi, para atrair os consumidores. "E disso nós também não estamos livres, pois o nosso simpósio é como se fosse uma feira, uma promoção dos produtos de cada psicanalista. O resultado é que a clientela ou não fica , ou fica e não muda. A verdade freudiana seria, antes, entender esse produto  como algo que o paciente cria com o analista."

     "Não tenho nada pronto a oferecer", diz Chebabi, "a não ser certa disposição a partilhar o Nada". A política de acumulação capitalista seria, no entender do psicanalista, um expediente inútil para tapar o vazio, "para não sofrer a tortura do Nada, pois o produto é a materialização dessa política de acúmulo, uma tentativa de obter garantias de sobrevivência, de status e até de eternidade."

     Chebabi considera, no entanto, que é pertinente, no momento atual, um simpósio como este realizado pela Clínica Social de Psicanálise. "Por que não são estudados esses temas pelos psicanalistas? Claro que há razões políticas para a evitação da política. Trata-se de evitar o questionamento, para domesticar a consciência crítica, herança maior da obra de Freud. O resultado é que a psicanálise se converte numa ideologia para satisfazer impulsos destrutivos, isso é o que a gente vê mais por aí."

     Wilson Chebabi acredita que a sociedade industrial contemporânea, aliada às técnicas de publicidade e propaganda, recalca a consciência desses impulsos destrutivos. "Por isso, é preciso resgatar o exercício da consciência. E, do nosso ponto de vista profissional, desenvolver a aptidão de experienciar o Nada, a não-coisa, no-thing, em inglês, o néant em francês, o nichts, a negativa, o dizer não, em alemão. Temos de desenvolver a aptidão de experienciar a dor do parto, de nascer, para não viver uma existência alienada."

     De acordo com a lógica do sistema, a psicanálise se transformou num banco em que se deposita o capital de idéias, afirma Chebabi. Ela assim se alia à propaganda, que elimina a dúvida ao criar consumidores. "A propaganda só trabalha com certezas: poupe e conquiste o que a vida tem de melhor. Isso é um apelo messiânico, para que não se sofra o martírio da dúvida. Trata-se de anestesiar consciências, pois a verdade está empacotada em slogans. Mas só a liberdade escapa e se esquiva, só ela permanece no espaço do Nada, ela morre se for decretada."

     Eduardo Mascarenhas intervém: "Essa nostalgia heideggeriana leva a isso. Não é verdade que a liberdade morra ao ser decretada. E a anistia?"

     Chebabi afirma que existe uma convergência entre o sintoma do indivíduo e a deformação social provocada pela sociedade capitalista. Para ele, há uma equivalência entre os conceitos freudianos e os da sociologia materialista. Assim, compulsão à repetição corresponderia à produção industrial, repetição numérica, e padronização social; recalque equivaleria à plutocracia, tirania dos meios de produção, onde o dinheiro não tem valor de troca, mas é valor em si mesmo, como no sistema bancário; transferência (a reprodução psicanalítica de situações de infância) teria analogia com a imposição de produtos pela propaganda, a criação de falsas necessidades; resistência (do paciente), à atitude reacionária; amor narcísico, ao individualismo, à incapacidade de partilhar amor com outros.

 

Pellegrino critica marotagem

 

     "É normal que um ginecologista, dentro do seu consultório, peça à paciente que tire a roupa para exame. Agora, imaginem o absurdo se ele generalizasse essa atitude, fora do consultório. Claro, do lado de fora o trabalho é outro."

 

     Em meio aos risos da platéia, o psicanalista Helio Pellegrino propõe uma piada para que se entenda o que ele chama de "marotagem ideológica", o chamado apoliticismo dos analistas.

     "No meu consultório, sou estritamente apolítico, não faça proselitismo das minhas idéias. Fora do consultório, minha posição é nítida e solar: sou militante do PT, socialista histórico, eventualmente histérico, e uso meios democráticos para promover a mudança social. Mas não adianta um paciente me falar de bombas de direita, que eu interpreto, quando estou trabalhando como psicanalista. Geralmente, quando ele fala em atentados à bomba, penso nas suas fantasias anais. E geralmente estou certo. É claro que não interpreto mecanicamente. Quero dizer que procuro exercer honradamente minha profissão, e sei que o paciente está ali para que eu o ajude a ouvir a verdade do seu desejo. Não adianta ele me falar que o Lula é um cara bacana, por exemplo, pois de nada lhe adianta uma doutrinação."

     "Lá, sou apolítico, muito bem", continua Pellegrino. "O modelo clínico é um artifício, para que possamos ouvir o inconsciente do outro. Temos de colocar a realidade entre parênteses, para que ele não nos perturbe com seu rumor. É como se quiséssemos ouvir estrelas: escolheríamos a noite. Isso não quer dizer que elas não existam de dia. O brilho do Sol nos impede de vê-las."

     A marotagem, segundo Pellegrino, é o analista generalizar sua atitude apolítica, fora do consultório. Hoje em dia é quase caricato o profissional que não diz nada, gravebundo, fleumático, como tantos psicanalistas. "Essa é a política do psicanalista. Ele, assim, coonesta uma ordem que lhe dá privilégios. Esse apoliticismo é um artefato ideológico de má-fé, essa omissão só serve aos interesses do status quo."

     Na opinião de Pellegrino, a psicanálise, no entanto, é uma atividade essencialmente política, no sentido de preocupação  com os interesses da polis, da cidade. "O que se passa num consultório?", pergunta. "Para que eu possa ouvir o desejo inconsciente de quem me procura, peço-lhe que se deite no divã e sem censura, sem ordenação prévia, proponho que diga o que lhe passa na cabeça. É a regra da associação livre. Às vezes, o paciente se deita, às vezes resiste. Quando ele é bom paciente, se deita. Produz, então, um discurso folhudo, o enorme material da produção do seu inconsciente. E para que eu possa ouvir a verdade do seu desejo, tenho de ser garimpeiro: uso uma bateia e no fundo pode ser que ache algumas pepitas. Assim, o ouro da psicanálise é escasso, ao contrário da Serra Pelada."

     Mas a prática clínica, como toda prática social, é política. E a psicanálise se insere no modelo capitalista por um dado que nada tem de psicanalítico: o preço. "Operário só entra no meu consultório como bombeiro ou pintor de paredes, jamais como cliente. Só entra quem paga o meu preço, e o preço é a nossa linha de partilha severa, o leão-de-chácara na porta do consultório, que tem a arrogância de barrar a imensa maioria do povo brasileiro. O preço é uma determinação do mercado, o ponto em que a psicanálise se articula com a política", diz Pellegrino.

     Já que sempre se faz política, é melhor que se tenha consciência disso, propõe Pellegrino. "Costumo usar uma metáfora. É como se estivéssemos num trem, à velocidade constante em trilhos polidos, e disso não nos darmos conta. Parece que estamos parados, e não estamos. Se a Terra tivesse o mau gosto de interromper nossa viagem, em que estamos vertiginosamente precipitados no espaço, se ela desse uma freada, saberíamos do movimento. A História é isso. A melhor coisa, então, é assumir, participar do comando da  cabina da locomotiva, através, por exemplo, de eleições diretas."

     Pellegrino afirma que a psicanálise se diluiu em instituições pachecais, com seus modos graves e ridículos, ao recusar entre outros o analista que tiver posição política de esquerda. "Nós sabemos que isso acontece. Se o cara é do PDS, pode. O PTB da Ivete também pode. O do Brizola, nem tanto. Mas a psicanálise é libertária, como o demonstram o mito Totem e Tabu e a Teoria da Libido."

     Uma leitura pessoal desses dois temas psicanalíticos faz Helio Pellegrino afirmar que aí estava o germe do estado de direito. "Totem e Tabu é o mito central da psicanálise, o que descreve o parricídio primitivo. O Pai autocrata que possuía todas as mulheres é morto pela horda e seus privilégios cedem lugar à lei. A interdição do incesto se manteve, quando os irmãos assumem o poder. É uma lei que transcende a todos, é o germe da democracia, uma revolução que significa o começo da cultura. A Teoria da Libido, por sua vez, faz com que sejam inaceitáveis para um psicanalista tanto o capitalismo, quanto as ditaduras, o terrorismo, as bombas (e não me refiro, agora, a qualquer fantasia anal). Sabemos que a criança passa do auto-erotismo, quando ela só se relaciona com seu corpo, ao homoerotismo (a imagem no espelho, segundo Lacan), e finalmente ao heteroerotismo, quando a libido se dirige para o outro. Se a sexualidade tende para o outro, só podemos considerá-lo investido de sua dignidade e integridade. Por isso, não pode haver psicanalista fascista, é algo incompatível com o pensamento de Freud."

     De projeto revolucionário, a psicanálise converteu-se numa técnica adaptativista. "Ela pega um bom neurótico e o transforma num alienado, isto é, piora o neurótico. Tudo por falta de visão política." A coisa vai a tal ponto, denuncia Pellegrino, que provoca horror nos visitantes. "Há pouco esteve entre nós a psicanalista francesa Piera Aulagnier. Ela ficou assombrada com o que se passa no campo da psicanálise no Brasil. Na França, o seguro social paga o tratamento psicanalítico de qualquer operário. Mas aqui, o nosso capitalismo selvagem é iníquo."

     Pellegrino sabe que a Clínica Social, fundada por ele e Katrin Kemper, em 1973, é uma gota dágua, uma contribuição "modestíssima", para "acalmar nossos sentimentos de culpa", modelo incipiente de sociedade alternativa ao establishment. Lembra, porém, "libertar a verdade do desejo é pouco, para o meu gosto. Para mim, o psicanalista de direita deve voltar a fazer análise. Enquanto ficamos nós ouvindo a verdade do desejo, a direita ataca com bombas. O importante, fora do consultório, reitero, é participar do debate, como este, é participar de uma organização política."

     Objeta-se que as clínicas sociais podem ser apenas uma repetição do modelo capitalista , um simples campo de prova para treinamento dos profissionais, como ocorre no INAMPS. Pellegrino admite esse risco e responde que a abstinência pecuniária dos profissionais que trabalham na Clínica Social nada tem a ver com humildade franciscana. "Nós ganhamos muito bem. São Francisco faria melhor do que nós. Estamos tentando abrir espaços. E não são muitos os psicanalistas que dizem o que nós dissemos aqui."

 

A expulsão

 

     A prestigiosa coluna Informe JB, então editada pelo jornalista Cícero Sandroni, deu a seguinte nota, profeticamente intitulada "O processo da psicanálise", datada de 11-10-80: "A Clínica Social de Psicanálise, que se propõe oferecer tratamento psicoterápico às pessoas de baixa renda, vem promovendo na PUC uma série de mesas-redondas sob o título genérico de Psicanálise e Política. Uma delas versou sobre o tema da prática psicanalítica no atual modelo econômico brasileiro, com a participação dos psicanalistas Eduardo Mascarenhas, Wilson Chebabi e Helio Pellegrino. A matéria deu origem à reportagem publicada pelo JORNAL DO BRASIL, em sua edição de 23-9-80, no Caderno B, sob o título Os barões da psicanálise, assinada por Roberto Mello.

      A diretoria da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, à qual pertencem os referidos psicanalistas, decidiu excluir de seus quadros Eduardo Mascarenhas e Helio Pellegrino, aplicando a pena de advertência a Wilson Chebabi. Entendem os punidos que a punição se deve ao fato de que, na mesa-redonda, denunciaram o caráter elitista da prática da psicanálise. E deixaram claro o fato de que a postura apolítica da psicanálise é artefato ideológico, destinado a encobrir a cumplicidade política de muitos psicanalistas, com os privilegiados que lhes pagam o próprio privilégio.

     Helio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas estão dispostos a lutar pelos direitos que têm como associados da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. E esta luta poderá transformar-se no processo da instituição psicanalítica brasileira."

 

Pé de guerra

 

     No dia 15 de outubro de 1980, o Caderno B abria a matéria com o título "A psicanálise em pé de guerra", em que Helio Pellegrino vinha a público para anunciar a sua expulsão e a de Eduardo Mascarenhas da SPRJ. "Assumimos nossa condição de excluídos, por amor à instituição, para mostrar o caráter arbitrário com que se exerce o poder na SPRJ", disse Pellegrino. O presidente da SPRJ, Victor de Andrade, concedeu-me uma entrevista em que afirmou: "Pretendemos renovar a Sociedade, fazendo críticas lá dentro, e não arrebentá-la, como querem Pellegrino e Mascarenhas". O texto da reportagem é o seguinte:

     "Os psicanalistas Helio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas - segundo afirma o primeiro - foram excluídos da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, por terem feito críticas à prática elitista da psicanálise, publicadas em reportagem do Caderno B, no dia 23 de setembro último. A decisão do Conselho Consultivo, órgão máximo da instituição, foi notificada aos dois analistas quarta-feira passada, dia 8, ainda segundo Pellegrino.

     O presidente da Sociedade, Sr. Victor Manuel de Andrade, ouvido segunda-feira pelo JORNAL DO BRASIL, declarou que a decisão ainda não tinha sido tomada e que o Conselho Consultivo estaria reunido terça-feira (ontem), quando sairia um pronunciamento final. Os Srs. Pellegrino e Mascarenhas disseram, porém, que o Conselho já havia tomado a decisão, pois na semana passada, quando compareceram à sede da Sociedade, em Botafogo, foram avisados de que tinham sido excluídos.

     "Eles nos disseram que estávamos excluídos", acrescenta Pellegrino, "e sob a capa de um falso coleguismo nos ofereceram como alternativa a sugestão de que pedíssemos demissão. Respondemos que se tratava de uma proposta desonrosa. Eles nos ofereciam o suicídio institucional para que, com a nossa demissão, um gesto de suprema gentileza masoquista, eles se demitissem do gesto arbitrário, se eximissem da responsabilidade de cometerem um homicídio institucional. Fazemos questão de assumir nossa condição de excluídos por amor à instituição, para ficar caracterizada a forma arbitrária com que se exerce o poder lá dentro da Sociedade. Vamos lutar pela defesa dos nossos direitos societários, contra o arbítrio de uma instituição que tem 170 membros e na qual só 23 votam."

     A exclusão da Sociedade em nada interfere no exercício da clínica dos dois profissionais, garantido por seus diplomas de médicos e pela formação específica como analistas que receberam na SPRJ. Além disso, deixarão de pagar a mensalidade de Cr$ 1 mil 500. "Concordo com a análise sociológica da prática psicanalítica feita por Eduardo Mascarenhas, mas suas declarações de que 90% dos psicanalistas não leram Freud, de que são ignorantes, constituem uma generalização que envolve colegas, são declarações pouco éticas", afirmou o Sr. Victor Manuel de Andrade, presidente da SPRJ.

     "Por exemplo, a Introdução à Obra de Melanie Klein, de Hanna Segal, a que os analistas se limitariam, segundo Mascarenhas, é estudada em quatro seminários na nossa Sociedade. Toda a obra de Melanie Klein é estudada em 28 seminários. Não sei onde Mascarenhas estava quando disse isso. Ele foi aluno daqui, estudou conosco, durante anos. Seria muito difícil ter que puni-lo, pois ele é um colega estimado. Mas sua agressão foi violentíssima, foi uma bofetada. A Sociedade em peso reagiu, nunca vi tanta unanimidade", continuou o Sr. Andrade.

     "Devemos criticar a Sociedade, mas lá dentro", explicou. "A Sociedade é rigorosa, mas lá dentro se fala o que quiser; aqui fora não se admite que se fale uma coisa dessas; houve espanto, choque, horror." O Sr. Victor Andrade admite também a procedência da crítica que aponta o poder gerontológico dentro da Sociedade. O Conselho Consultivo, órgão deliberativo máximo da SPRJ, é constituído de ex-presidentes, mais dois membros votados pelos 23 membros titulares. Os candidatos são sempre ex-membros da diretoria, composta de presidente, secretário e tesoureiro. Afirma-se que esse poder tam uma estrutura quase vitalícia.

     "Veja bem", responde o Sr. Andrade. "Tenho 43 anos, sou o presidente mais novo na história da instituição, talvez o mais novo presidente de uma sociedade psicanalítica em todo o mundo. Estamos promovendo mudanças, uma renovação dentro da Sociedade. Quero fazer uma equipe de gente jovem, cada vez mais. Mas essas coisas se fazem trabalhando dentro da Sociedade, não me interessa fazer discursos para bandas festivas nos bares."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

»23/05/12 20:00
Seminário: Isabella Castro

»30/05/12 08:30
Secção Clínica

»30/05/12 20:00
Mutirão: Psiquiatria e Psicanálise

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