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O nome “ Fazenda Freudiana de Goiânia”, proposto por Roberto Mello, alude metaforicamente ao Inconsciente, invenção maior de Freud, e remete à fantasia, valorizando a sua cor local. Como esboço de justificativa, foi apresentado o seguinte texto comemorativo do nascimento da instituição:
“Na aurora do terceiro milênio, às vésperas de completar cem anos, a psicanálise é ainda uma criança. Comparada com a física e a matemática, está apenas engatinhando, balbuciando, e, no entanto, é inaudito e que vem dizendo desde Freud com a radicalidade da descoberta do Inconsciente e o enigma da Pulsão de Morte.
Rupturas epistemológicas, deslocamentos dos saberes, feridas narcísicas na imagem que o homem fazia de si mesmo somaram-se na denúncia da fragilidade do império da consciência na vida psíquica e na crítica dos estreitos limites de um reducionismo cientificista no trato com o Universo.
Descentrado, não mais o ponto culminante da evolução das espécies, sequer o senhor de sua própria casa, órfão de um único paradigma que lhe atenuasse as angústias ante o caos contemporâneo, o falante se volta para a psicanálise na expectativa de que o liberte do mal-estar.
Marcada por dissensões que lhe constituíram a especificidade de saber conjectural, entre ciência e arte, nem por isso a psicanálise deixa de apresentar um patrimônio comum, como um rio que corre rosianamente ajuntando no leito de sua terceira margem as conquistas teóricas, práticas e clínicas, que nos libertam do fardo excessivo da sobrevivência e nos aliviam a dor, justificativa maior de sua intervenção na cultura.
Na aurora dos sessenta anos de Goiânia, nasce a Fazenda Freudiana, uma instituição que se dispõe a fazer psicanálise. Se a verdade surge da equivocação, como queria Lacan, e se o nome é fantasia, portanto herança do simbólico, um nome ultrapassa o dado imediato, bruto, é algo a ser construído. Que cada um faça por merecer o que tem. Fazenda vem do latim vulgar lusitano facenda, “coisas que devem ser feitas”, segundo o Aurélio.
Fazenda Freudiana é também o tecido, decerto simbólico, carregado de hiâncias, propiciadoras da centelha poética no inesperado de uma juxtaposição (do latim juxta, “posição ao lado”): tomada de posição com Freud, com Lacan, vigas-mestras, horizontes, largueza de vistas para o campo do desejo de Impossível. Fazenda Freudiana, com local que habita o discurso, o remanso o sonho, as aspirações de quantos pretendem fazer a psicanálise falar brasileiro. Sem xenofobia, nem colonialismo. Unidade produtiva, presença na cultura, no imaginário de um país agrário e moderno, arcaico e em devir, heterofagicamente mestiço.
A Fazenda Freudiana de Goiânia abre um espaço de convergência para os que se engajam na lida com a psicanálise e na formação dos seus oficiantes, em respeito à pluralidade no acolhimento das diferenças que apontem para uma eficácia simbólica no exercício da clínica, em busca da verdade, na competência erótica, na criação.
Sem esquecer que o nome de Freud quer dizer alegria, misturá-lo ao da Fazenda é assumir uma aposta de que daí um Sujeito poderá advir”. (Roberto Mello, Goiânia, 28 de setembro de 1993).
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